Musical Saracura
Musical Saracura - ou somente Saracura - foi um dos grupos de musica mais influentes na virada década de 70 para 80 dentro do cenário gaúcho. Considerado um dos pioneiros do Rock Gaúcho (seguindo a trilha dos Almôndegas de Kleiton e Kledir) o grupo era formado por Nico Nicolaiewsky (teclado e voz), Sílvio Marques (guitarra e voz), Flávio "Chaminé"(baixo e voz) e Fernando Pezão (bateria).
TEXTO POR SILVIO MARQUES


COMO SE FORMOU O MUSICAL SARACURA?
Em novembro de 1975, com um grupo de amigos, fiz a estreia de um espetáculo musical chamado Academia de Dança. Dias depois do evento fui convidado pela amiga em comum, Teresa, a ir ao encontro de um cara que havia gostado do show que viu no Teatro de Câmara, e pediu a ela pra nos apresentar. Fui lá no edifício Apollo, na Ramiro Barcelos, apartamento da família, conhecer o Nico. De cara sentimo-nos "em casa" um com o outro, e fomos direto ao assunto enfileirando canções que havíamos feito. Compusemos "Flor" e fomos formando ao natural, com violão e o piano no quarto do Nico, o que seria um dia repertório musical amplo. Conseguíamos cantar juntos algumas canções, dividir vocais em outras e começamos a achar que soava bem... Chamamos o flautista Paulinho Xavier, convidamos também outro músico, bandolinista. .. este a mãe proibiu! Éramos adolescentes, 17 e 18 anos.
Assim, formamos um trio de acordeom, flauta e violão. Esse tino pra viabilizar as coisas, usando a gaita, de não se render ao imobilismo do piano é a cara do Nico em ação. Éramos cabeludos e nosso amigo, e grande fotógrafo, Sérgio Sakakibara, fazia fotos legais da gente. Íamos cavando espaço.

Começamos a tocar em algumas mostras de som que aconteciam nas faculdades da UFRGS. Também apareciam por lá o Nei Lisboa e o Boina. Em seguida o Paulinho foi morar no Rio e seguimos em dupla, com o show Catinga Blues! Jocosidades e romantismos....não havia blues algum. Irreverência pela instrumentação e músicas engraçadas e outras muito sérias! Já havia no Nico essa atração pelo espetáculo, sempre gostou de elaborar roteiro, era bailarino .....fui vê-lo dançar espetáculo da Mudança, grupo da Eva Shultz na época. Queríamos ser profissionais, então lá fomos nós fazer o exame da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB). Musicalmente, em comum, desde lá, tivemos o estudo e interesse no conhecimento musical. Isso sempre rendeu conversas longas.Tivemos o mesmo tipo de aprendizado musical, escola clássica e estudamos canto com a ótima Mirtes Landi

Ouvíamos os discos que a Janete (mãe do Nico) trazia de viagens, coisas portuguesas, gregas, também gostávamos daquelas concepções cruas, sem solos, que caras como Cat Stevens gravavam.
Havíamos concluído o colégio naquele ano, e nunca mais se falou nisso. Acho que decidíamos ali que nosso trabalho era a música. O Nico conheceu o Cláudio Levitan (já havíamos assistido "Em Palpos de Aranha") e ele nos mostrou canções pelas quais nos identificamos de imediato e as incorporamos como nossas. Tocamos do nosso jeito e gostamos.....
Nessa época baixou em minha casa um baiano a fim de tocar por aqui. Compositor importante, Piti tinha parcerias com Gilberto Gil e era maduro musicalmente, o oposto da gente, ainda pirralhos em tudo. O Piti nos ouviu e fez o convite para acompanhá-lo em show a ser criado ainda. Para tal, precisávamos de baixista e percussionista. Por indicação do Cláudio, veio
seu amigo Chaminé, músico respeitado por suas muitas e boas bandas de rock e o De Santana, profissional rodado na cena. Era uma época que se chamava, para parcerias assim, amigos, que chamavam amigos, que chamavam amigos...... afinidades contavam bem mais que especialidades. Uniu-se à ideia a querida e super produtora Sônia Duro, que organizou nossa turnê pelo interior de São Paulo e Curitiba, onde ralamos e nos divertimos em igual dose. Ficávamos longos períodos numa cidade, conhecendo gente e tocando em lugares diversos....doce vida sem compromisso algum.

Pelo convívio, nos conhecemos mais, e ficamos amigos. Em Curitiba, depois de uma noite no Teatro Guaíra eu, o Chaminé e o Nico pegamos um ônibus rumo à Porto Alegre. .....Naquela madrugada de estrada decidimos montar uma banda, convidar a Gata (Maria Cristina Raimundo, nas baquetas em outras bandas com o Chaminé ) pra bateria e iniciar carreira.
O nome da banda foi decidido em votação na casa da Verinha Vergo, com ela, o Claudio Levitan e a gente elegendo Saracura como nome ideal pra banda. Mais tarde, pra fazer graça, acrescentamos o Musical. Ensaiávamos no porão da casa da família da Gata, na Quintino Bocaiúva, e com essa formação estreamos, em 1977, no Teatro do Círculo Social Israelita (hoje Hebraica). Produção de amigos (Ênio Lindenbaum à frente) mas com roteiro, cenário bonito e som profissional.
No ano seguinte, com direção do Kleiton Ramil e produção da Ângela Moreira e do Ricardo Nicolayewski (irmão do Nico), retornamos ao Círculo, agora com show e produção mais apurados, para longa e exitosa temporada.
Pouco tempo depois, quando da temporada no Teatro Leopoldina, a Gata saiu do grupo, passando o posto ao meu batera ídolo de Colégio São João, e reconhecido pelo Chaminé como bom músico no cenário roqueiro: Fernando Pezão. Passamos a ensaiar muito, todas as tardes no Círculo Israelita, era nosso ofício.
Nossas músicas já tocavam nas rádios locais e éramos requisitados na mídia. Pela mão do Pezão, chegou o Zé Flávio, que além de muitos shows com a gente, gravou as guitarras do único disco do Musical Saracura. Decidimos gravá-lo de modo independente pela falta de perspectivas em grandes gravadoras, onde investimos sem sucesso. Os shows de lançamento do disco foram marcantes. Logo depois fomos contratados pela Continental Discos (SP) em parceria com a Lira Paulistana.....aí a história se alonga e vai embora...até 1984
PS - Montamos alguns espetáculos, temporadas em Teatros nesse curto tempo, viajamos muito. Trabalhamos com os diretores Paulo Albuquerque, Cláudio Levitan, Celso Loureiro Chaves. Com os produtores Paco Escajedo, Beth do Val e nossa empresária Ângela Moreira. Tocaram com a gente o Zé Flávio, Léo Henkin, King Jean, Luizinho Santos, De Santana.
Tangos e Tragédias
Tangos e Tragédias foi um espetáculo musical brasileiro, com elementos de teatro criado em 1984. A peca foi idealizada pela dupla de atores e músicos gaúcha Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky.
TEXTO POR HIQUE GOMEZ


A primeira vez que cruzei com ele foi no Bom Fim, bairro boêmio em Porto Alegre, no Copa 70, um bar onde se encontravam artistas, hippies e a resistência da ditadura. Eu o achava uma figura interessante, jeito de artista, personalidade forte, nariz adunco, cabelos encaracolados e fartos, macacão jeans …mas nem sabia ainda o que ele fazia. Certa vez houve um show universitário, uma espécie de sarau na frente da universidade de arquitetura onde vi Nico pela primeira vez tocando. Era aquela figura de macacão jeans tocando violão e cantando uma musica que não era um blues mas falava : “Catinga Blues, um homem fantasiado de amendoim me olhou e disse assim Catinga Blues”… Fiquei intrigado com aquilo. O homem fantasiado de amendoim me parecia ele mesmo, com o nariz adunco e o cabelo espigado. Eu tinha 17 anos. Uns dois anos depois foi anunciado um show com de um grupo de Porto Alegre com um cara baiano. No teatro do IPA, eu e minha namorada fomos ver. Parecia importante o que iriam fazer. Nico com seu estilo único, lá estava. Cantava "Pois o homem que não chora , fica seco o seu jardim você pra mim foi como o vento... que passou trazendo a chuva que molhou por dentro o meu amor... Lirismo puro, poesia original. Nico cantava, piscando os olhos, havia alguma coisa acontecendo com ele que nós não decifrávamos, mas simplesmente nos encantávamos. Era um artista original que não deixava duvidas sobre isso. Logo veio todo o sucesso do Musical Saracura. Canções maravilhosas que marcaram gerações e destilavam bom humor. Uma aproximação natural como folclore gauchesco também nos encantava.

Uma vez eu estava tocando em um restaurante com Norminha Duval, uma excelente violonista, e a família do Nico apareceu num domingo. Tocávamos nas mesas circulando pelo restaurante. Fomos a mesa da família e todos pararam tudo para ouvir o que tocamos. Todos curtiam muito musica. Eu falei que conhecia ele que tinha ido aos shows e tal. Ele curtia saber que era reconhecido mas não falava muito. Depois começamos a nos encontrar em shows coletivos no Araujo Vianna e em festivais como O Cio da Terra. Eu tinha uma outra dupla com o Sabrito era "Hique e SaBrito", tocávamos vários instrumentos e o Sá tocava acordeon também. Nos sentíamos compartilhando uma cena, compondo e tentando traduzir os em arte as tendências do tribo. Mas ele já era um ídolo. Um dia nos encontramos a redenção e eu falei que estava gravando , ele perguntou o que eu estava tocando eu falei até violino. Isso despertou um interesse imediato nele. Marcamos de levar as minhas gravações na casa dele. Eu já estava casado fomos eu e Heloiza. Mostrei a fita toda e ele disse que não gostava muito daquilo, mas tinha gostado do violino. Falei que eu estava começando e podíamos estudar juntos. Marcamos uma sessão na minha casa e ele apareceu.

Ele tocou algumas musicas e eu mandava ver no violino como quem estivesse tocando guitarra, que era o som mais parecido para quem nunca havia estudado. Meu jeito de tocar violino era country, tipo fidler. Era rústico .
No final de uma canção ele falou , “bah… mas tu não quer nem saber né.” Fiquei reticente… não sabia se tinha gostado ou não. Ele percebeu que eu não havia entendido, e emendou “ não, é que o violino que eu gosto é aquele tipo romântico. Pensei romântico??? Jamais pensei naquela época em tocar nada romântico. Aliás romantismo era uma coisa muito careta no meu meio de amigos. Ok, falei, “toca mais uma”, e dei uma maneirada na minha pegada de guitarrista ao violino. Fiz de conta que acompanhei num violino romântico completamente sem romantismo. Aí ele curtiu mais porque eu avia suavizado. Era só o que falta, eu virar um violinista romântico… seria uma vergonha para minha parceria com o Fábio Mentz, fazíamos musica e astrologia não tinha espaço para romantismo. Ficamos de nos encontrar outro dia na casa dele. Fizemos mais algumas sessões e eu lembro de um comentário do seu irmão o Ricardo sobre meu violino... "Bah, como toca mal..." Eu sabia disso, estava começando mesmo e as sessões era para estudarmos musica juntos. Eu havia estudado violão clássico e já tocava razoavelmente . Tocava guitarra desde os 15 anos. Mas o violino é um instrumento ingrato. Ele então tocou O Ébrio do Vicente Celestino. Eu conhecia de um disco que tinha em casa sobre história da Musica Brasileira, mas jamais havia pensado e tocar. Ele dava o texto introdutório mudando algumas palavras e eu achava aquilo ridículo e muito engraçado. Começamos a nos divertir e a tentar outras canções até que pintou uma data no Bar do IAB para um show que ele estava preparando. Ele pensou que podíamos fazer juntos adiou a data e começamos a nos dedicar a um repertório. Ensaiávamos casa da mãe dele D. Janete, onde tinha um piano, e as vezes na cozinha onde tinha uma mesa onde escrevíamos. Neste bar do Instituto dos Arquitetos do Brasil tinha uns shows legais. Um deles era do Cem Modos , um fantastico grupo de bonecos, Luiz Ferré, Betinho Dorneles e Pedro Girardello, que mais tarde se transformou no TV Colosso da Globo. Tinha um personagem chamado Bonder, era um antropólogo que que falava uma lingua estranha ia para uma excursão chamada Skavoka Skavoka. Eu pedi para o Ferré fazer uma letra para nós com aquela lingua em cima de uma musica do Chaplin que se adaptava muito bem ao que o Nico estava propondo. Como ele não aprontava e o show estava proximo fizemos nós mesmos.

E ficou assim :
Fiz a primeira parte:
Desgrazzia Ma non troppo
Qual trono fá piruela
Se táti embriagado balhe a riba su topor.
Nico fez a segunda:
Pletskaya e Kraunu sangue
Desesperovna Schissel
Pobrovna mãe materna
Kliks on Vander Boi tatá
Dividimos :
Su barcarola vola
Su schnessel vassen frito
Vá nun tango e carcamano
Cara dura e macarrón
aleronte siaca
aleronte siaca
aleronte siacabou

Vamos fazer personagens, eu propus, como a frase "Pletskaya e Kraunus Sang"poderia sugerir. Eu sou Kraunus Sang! Ele pensou e falou "ok eu sou Pletskaya". Mas ainda não tinha certeza disso, tanto que falava que não se lembrava deste momento.
Uns dias antes da estréia tínhamos um repertório bem coerente e muito divertido.
Uns tangos do Vicente Celestino , o Tango da Mãe que o Saracura já havia gravado do Claudio Levitan. Ele não queria tocar essa por ser da banda que ele estava saindo mas eu insisti. Além disso outras musicas trágicas incluindo um samba de breque. Ele falou que havia pensado num nome e disse, "que tal Tangos e Tragédias?" Saímos rindo do ensaio que ficava cada vez mais divertido.
Chamamos o Roberto Silva para fazer fotos promocionais e colocamos umas roupas emprestadas como o repertório sugeria. Roupas antigas surradas e Preto e Branco. Nesta sessão de fotos surgiram os personagens. No dia da estréia estávamos nos corredores e do bar e os nomes dos personagens voltaram a pauta e é deste momento que ele falava que se lembrava.
Eu tinha 24 anos e estudava musica para ser orquestrador, mas depois deste dia passei a fazer parte de uma das aventuras mais instigantes das artes performáticas feitas no Brasil. Passei a desenvolver um tipo de performance que supreendesse o meu parceiro e que ele achasse instigante ao mesmo tempo. Ele foi um artista exigente pra caramba. Era difícil agradá-lo, mas eu sei que consegui. Trabalhei muitos anos com este objetivo de surpreender e agradar o meu parceiro, pela via do desafio criativo. Se fosse para sermos musicistas/humoristas que assim seja. A cima de tudo criamos uma obra de arte radical.
Tivemos muitos conflitos, especialmente de estilo pessoal. Mas utilizamos estes conflitos como mola propulsora, e o que ficou como resultado em parceria de 30 anos foi :
"Ninguém! Ninguém se divertiu mais do que nós!"
Nico Nicolaiewsky
"Nico Nicolaiewsky"é um álbum homônimo do artista Nico Nicolaiewsky, sendo seu primeiro álbum solo de estúdio. Lançado em 1995 o álbum contém valsas e canções líricas. O disco virou trilha sonora do filme "Amores" de Domingos de Oliveira.
TEXTO POR ARTHUR DE FARIA


Há anos eu implorava pro Nico gravar um disco solo. Já tinha até desistido quando, jantando depois do show de lançamento do disco do Hique, o fabuloso "O Teatro do Disco Solar", em pleno Birra & Pasta, dividindo uma mesa com Nico e Fernando Pezão, resolvi tentar de novo, só por desencargo de consciência.
- Meu, agora que o Hique fez o dele, tu não vai fazer o teu?
E Nico, de bate-pronto, olhando pra mim e pro Fernando:
- Sóóó se vocês produzirem.
Bah!
Sim!
Corta pra dali a uns meses.
Reunião na casa da Márcia e dele, com a primeira trazendo sorriso e sanduíches e o segundo monologando ensandecido milhões de ideias e conceitos.
E a gente ali, Pezão e eu, só escutando.
Até que:
- Maaaaaaas voooocês não vão falar nada?!?!
Seguido de uma obra-prima do ato-falho:
- Voooocês tão aqui pra dizer o que eu acho!!!
Pezão:
- Exatamente. Então... que que eu vou te dizer?

Primeira missão: decidir qual show seria a base do tão adiado primeiro disco: o elétrico "O Poeta Analfabeto" ou o íntimo espetáculo a duo que tinha feito, voz, piano e bateria, com o Fernando, pouco tempo antes. Depois de muita discussão, para minha alegria e júbilo - esse show mudou minha vida - foi esse, íntimo, que acabou sendo o escolhido. Começam as gravações nas madrugadas ociosas de um estúdio de publicidade emprestado por um amigo. Do que eu mais lembro é do sofá que me acolhia nanando naninha nas horas mortas das discussões entre os velhos parceiros e cúmplices Nico & Pé sobre o andamento correto de cada tema - discussões daquelas que, certamente, o Jorge Luís Borges classificaria como mais adequadas à eternidade do inferno do que à nossa efêmera passagem pela terra. Não adiantava nem tentar me meter. Afinal eu era só o co-produtor, e muito obediente aos chefes. Só me restava rir de tanta meticulosidade junto com o Silvinho, craque importado direto do Roberto Carlos, que gravou e mixou tudo.
Dessas primeiras sessões, onde foram feitas as guias todas e gravados os teclados, fomos para o melhor estúdio da Porto Alegre de então - a Eger/Tec Audio. Era a hora de colorir aquele esboço: tuba, trombones, acordeom, baixo acústico, a mínima e fabulosa bateria do Pezão e... um piano propositalmente desafinado.
Sim, a gente chamou o Person, até hoje o melhor técnico de pianos da área, pra desafinar o piano de parede do estúdio, atrás daquele timbre maravilhoso de pianinho vagabundo de cabaré, vaudeville, music hall.
Terminado isso, era vozes e, agora sim, um puta piano. Vozes na mesma Tec, o fabuloso Steinway & Sons de cauda do teatro da Reitoria da Puc, com aquela acústica única, registrado pelo professor Pardal Marcelo Sfoggia.
E se até agora tudo tinha sido encanto e diversão, esse era o momento de sentar, abrir ouvidos e olhos e simplesmente receber aquela beleza e aquela excelência toda que jorravam dos dedos e da garganta do meu amigo. Nunca vi ninguém cantar como o Nico. Nunca vi ninguém tocar como o Nico. Não que ele fosse melhor que todo mundo, não é isso. É que era muito único. Sua música era muito única - letra, música. Sempre deu pra saber que ele tinha ouvido muito Satie, Nino Rota e Odair José, mas isso era tão reprocessado que gerava uma outra coisa. E o som que ele tirava do piano, sempre da forma mais clara e simples que obsessivamente ele buscava, também era único.

Tenho muito, muito orgulho desse disco. Não acho que haja outros discos como esse. Um disco que não envelheceu nada, que segue atemporal e singular. Íntimo, lírico, mínimo. Não parecido com nada que eu tenha ouvido antes ou depois.
Minto.
Anos passados do seu lançamento, saio de uma das salas de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana absolutamente encantado com O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Mas, pensando no disco do Nico e suas valsas com acordeom e piano, a primeira coisa que faço quando chego em casa (em tempos pré-celular) é ligar pro Nico:
- Meu. Fudeu. Vai ver o filme que tá passando na Mário Quintana. E te prepara: daqui pra frente a gente (sim, é fácil deduzir: minha música tem muito da música do meu amigo) vai ser pra sempre os caras que imitam o cara da trilha do Amélie Poulain.
Felizmente errei.
As Sete Caras da Verdade
"As Sete Caras da Verdade" foi gravada em 2003 após Nico ganhar um edital da Fumproarte. Com textos e musicas escritos pelo próprio Nico e em ritmo de aventura ela conta a história de um assassinato com muita confusão. Seu CD acompanhava um libreto com a história em quadrinhos e um karaôke.
TEXTO POR FERNANDO CORDELLA


Em 2002 o Nico me convidou para participar como cravista da gravação do CD da ópera “As Sete caras da Verdade”. Neste processo criamos juntos boa parte da sonoridade do cravo na instrumentação da ópera e acabamos nos aproximando como amigos. No lançamento do CD em 2003 falei para ele que esse projeto não poderia ficar apenas num disco, que deveria ir para o palco ao vivo. Mas naquela época o Nico não enxergava o CD num espetáculo.

Uns anos depois, convidei o Nico para fazer um Concerto com músicas autorais dele com a Orquestra Sinfônica de Carazinho, projeto que ajudo, e foi neste momento que nos aproximamos mais, pois todos os arranjos orquestrais escrevi especialmente para aquele espetáculo. O processo de criação foi realizado em parceria, onde eu escrevia os arranjos e trocávamos ideias. O Concerto foi um sucesso, tanto que foi realizado mais duas vezes em Porto Alegre, uma delas com a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro e outra com a Orquestra de Câmara da ULBRA. Nesta última teve a participação da Fernanda Takai. Dando sequência, convidei-o para fazer um espetáculo com músicas de Beatles com orquestra e coro. Nesta ocasião a Nina participou junto e foi uma das primeiras apresentações dela como solista. O concerto Beatles também foi um sucesso, tanto que no ano seguinte fizemos uma segunda edição com novas músicas.

Neste ambiente fazendo música orquestral, foi quando eu trouxe novamente, praticamente 10 anos depois do lançamento do CD, para apresentarmos em palco a ópera “Sete Caras da Verdade”. Neste período surgiu o convite de apresentá-la no festival Em Cena, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Nesta vez o Nico decidiu apresentar em ópera. Ele sempre me dizia que nunca imaginava encenar a ópera porque ele não imaginava mais de 2 pessoas no palco juntas, que dirá 40? Mas era preciso transformar o formato inicial numa música para espetáculo, inclusive na duração, porque no CD tinha um molde mais de musical e tinha menos de trinta minutos e para uma récita de ópera era necessário que durasse pelo menos uma hora de espetáculo. Nesse momento, reuni todo o material antigo e comecei a fazer um novo arranjo e orquestração, tudo com uma “cara” mais lírica. Nesse processo também acabei compondo algumas novas passagens para dar uma forma operística.

Esse processo levou aproximadamente 6 meses para recriar a música. Era muito fácil trabalhar com o Nico, nós nos entendíamos muito bem porque pensávamos muito parecido. Quando eu trazia uma ideia nova para ele, era aceita de imediato, até algumas vezes ele dizia para mim: “como não pensei nisso antes!”.
Para esse novo formato foi necessário mudarmos o elenco, e além dos solistas entrou o Coral Expresso 25, que tinha uma função cênica muito importante. As questões musicais todas estavam sendo pensadas neste novo conjunto. Outra participação muito importante foi da Márcia do Canto para a criação e direção cênica, onde música e cena caminhavam no mesmo sentido.
Foram muitas madrugadas trabalhando neste novo arranjo e orquestração até chegar na versão definitiva, sempre sem mudar o embrião inicial.

Ao fim ele disse que não imaginava que seria tão fácil e recompensador, tanto é que em seguida ele iniciou um novo trabalho, a ópera “O Rei Arthur”, que ficou inacabada. Continuamos a fazer outros trabalhos orquestrais, dentre eles o Músicas de Camelô orquestrado, cujos arranjos para o show completo foram finalizados poucos dias antes dele ser hospitalizado. Tínhamos muitos planos para depois da sua recuperação. Infelizmente não foi possível continuar com nossos planos. Perdi, além de um colega, uma pessoa que admiro muito, um amigo-irmão.
Onde Está o Amor?
"Onde Está o Amor?" é o último álbum de estúdio de Nico, lancado em 2008 ele se diferencia dos outros discos por conter um caráter mais pop. O disco foi produzido por John Ulhoa, guitarrista da banda Pato Fu.
TEXTO POR JOHN ULHOA

Tava tendo copa do mundo.
"Escuta, aquela TV ali no canto, não dá pra ligar ela no jogo enquanto a gente grava?"
O Nico sempre me pegou desprevenido. Sempre. Acho que, sendo eu mineiro e por isso não exposto à sua arte desde os primórdios, mais desprevenido ainda. De cara, quando vi o Tangos & Tragédias num teatro em Belo Horizonte, já na época a muito tempo em cartaz, mas pra mim eram vindos de lugar algum. De outro planeta, quero dizer. Depois, quando o André Abujamra sugeriu convidá-los para participar do disco que produzia conosco à época, eu não soube nem o que fazer com tanto talento que entrou pela porta do estúdio. Depois participaram do nosso "Ao Vivo". Ali nos tornamos amigos, e nos ensaios comecei a ter uma vaga noção do artista com quem estava lidando.

Daí ele me chama pra produzir seu disco. Me lembro da troca de emails, telefonemas, aquele monte de repertório pra escolher, músicas de todo tipo, umas pré-produções muito boas. Quando veio pro meu estúdio e começou a cantar e tocar, lá estava eu, desprevenido de novo, admirando aquele tipo de personalidade que parece ter um universo próprio, molde únco, canta como mais ninguém, compõe como mais ninguém, tudo é expressão de um modo de ser próprio, original e genuíno.

Quando escuto hoje em dia o que fizemos juntos, mais uma vez tomo um susto. Adoro esse disco, me emociono ao ouvir, acho incrível que ele tenha me chamado pra produzir, que tenha saído de sua zona de conforto gaúcha e tentado ver no que daria a minha contribuição. O que sairia do encontro desses universos paralelos que sempre se admiraram de longe, mas que raramente são postos à prova juntos? O Nico pagou pra ver, me encho de orgulho de pensar que ele me considerou à altura para a tarefa.

"Onde Está o Amor?" pra mim é quase um álbum-conceito, um disco romântico, de um romantismo de tiozinho, de adolescente, de adulto, sério e cínico ao mesmo tempo. Algumas músicas eram composições mais antigas, o que explica alguma coisa, mas não tudo. Pra entender mesmo, vocês precisavam ver o Nico no estúdio. Seus takes de voz eram incríveis, tinham uma paixão e uma doçura tão sinceras como raras vezes vi. A gente mudava o tom radicalmente pra experimentar, e ele continuava "dentro da música", obedecendo ao que o novo tom ditava, apontando pra uma emoção que estava até então escondida na composição. E a TV ali no canto, passando o jogo. Peça rara, que saudade. O amor está em suas músicas, Nico.
(John Ulhoa)
Musica de Camelô
Música de Camelô foi um projeto criado por Nico Nicolaiewsky onde ele rearranjava musicas populares que estavam na "boca do povo" como "Tô Nem Aí" de Luka, "Balada Boa" de Gusttavo Lima e "Ai Se Eu Te Pego" de Michel Teló
TEXTO POR CLÁUDIO LEVITAN

O Nico era mais do que um grande amigo, era como um irmão caçula, meu inesquecível parceiro.
Fazer música com ele era muito fácil, bastava nos encontrarmos e decidir: vamos fazer uma música? E fizemos muitas.
Além de um baita compositor, era um intérprete maravilhoso, sensível, revelava as canções. A ele devo o sucesso de muitas das minhas canções. Mais pareciam dele do que minhas. No Saracura, ele experimentava até aquelas que eu levava na brincadeira. Uma delas foi o grande sucesso do Tangos e Tragédias: Ana Cristina. Devo isso a ele. Por isso, tudo que me pedia, eu atendia de bom grado.
Fui assistir duas ou três vezes o seu show MÚSICAS DE CAMELÔ (hoje me arrependo de não ter visto mais!). E disse o que achava: era a síntese de tudo o que ele buscava há anos. Simplicidade, canções lindas que o povo adora e de produção fácil e prática. Ele sozinho no piano tocando o que gostava com humor e respeito. Desde sempre, gostava de trazer para seu repertório as canções de outros tempos, de interesse dos mais simples, do gosto popular. Coisa que também buscava em suas canções: atingir todo mundo. Por sua cultura musical, introduzia esse conhecimento e tornavam-se canções populares sofisticadas.
Nesse show, ele fez isso com o domínio da experiência em todos os seus sentidos, principalmente, do seu timing de palco.
Falei pra ele que os seus quatro talentos estavam postos no palco com muito equilíbrio: o pianista, o intérprete, o compositor e o ator.
Ele me olhou em silêncio e ficou quieto. Fiquei na dúvida se ele gostou do que falei ou se ofendeu.
Um tempo depois, me ligou assustado: "tô indo no Jô dar uma entrevista sobre o meu show que estou levando pra SP! Pensei até em perguntar se podia te levar junto kkk Será que tu podias me repetir o que tu falaste sobre meu show?"
Falei sobre os quatro pontos. Ele me pedia para repetir. "Estou anotando!" Ele estava se preparando pra entrevista. Estava apavorado. Como gago, o Nico odiava ter que responder perguntas, dar entrevistas, falar. Ajudei ele e nos divertimos organizando as frases. A Márcia do Canto disse uma vez que o Nico não é engraçado, ele é sincero!" Era bem isso!
Ele escolheu as frases que lhe pareciam melhores para decorar e poder dizer sem gaguejar. Uma delas, conseguiu dizer no meio das perguntas e que me pareceu pouco natural: "na verdade, o show é uma reverência à capacidade dos compositores de lavar a alma humana". Noutro momento, ele interrompeu o Jô para elogiar a pergunta dele, mas preferiu cantar outra canção que definia melhor o show. Era a canção que virou sucesso na voz do Teló ("Ai, se eu te pego") em que ele usa um piano quase clássico, uma voz romântica e um respeito intenso pela canção, o que definia exatamente as qualidades desse trabalho como um todo.
Na plenitude da sua arte, ele pode revelar que o gosto popular era imbatível, como se diz, "vox populi, vox dei".
(Claudio Levitan)